Mafalda Orlandini


16/02/2015 | Carta Preciosa de Mãezinha

Durante a minha adolescência, era costume vendedores visitarem as residências e oferecerem coleções de livros. Depois que meus pais me presentearam com o “Tesouro da Juventude”, eu guardava parte de minha mesada (500 cruzeiros) para comprar outras obras. Adquiri o “Mundo Pitoresco”, “Romances Universais Famosos” e a “Enciclopédia Barsa”. A enciclopédia era acompanhada de uma “Bíblia Sagrada”, ricamente encadernada de preto e dourado em uma caixa também dourada. A enciclopédia já doei há muitos anos, mas a Bíblia e a caixa dourada permanecem comigo. Fui colocando nesta última as muitas cartas e os cartões que ia recebendo. Na semana passada, ao escrever sobre o Marin, lembrei-me de que deveria haver lá um cartão dele. Pedi que me alcançassem a caixa que estava entocada na parte mais alta do roupeiro. Não só encontrei o cartão como outras lembranças valiosas. Uma que me emocionou deveras foi um envelope sobrescrito pelo meu pai. Dentro uma carta de minha mãe em duas folhinhas de papel do Tamoyo Hotel de Lindoia.


O envelope.

Comecei a ler e lembrei-me do fato que a originou. Papai fora diagnosticado com pedras nos rins e recomendado a fazer uma temporada em uma estação de águas termais. Os amigos de São Paulo, representantes das Indústrias Orlandini SA naquela cidade, reservaram hospedagem para papai e mamãe em Águas de Lindoia, conhecidíssima por seus poderes curativos. E, em março de 1967, lá se foi minha mãe realizar a única viagem de avião da sua vida e sua única saída do Rio Grande do Sul. Hoje, em 2015, tenho em mãos a cartinha que escreveu na ocasião. O início da carta é tradicional, simples e carinhoso.

E vai relatando sua viagem e chegada de um modo simples, claro, preciso. Conta que enjoou no avião e papai não. No aeroporto, foram recepcionados pelos paulistas que os levaram ao Hotel Excelcior e, mais tarde, a um jantar.  Sua leitura impressiona pelo seu encadeamento lógico, letra firme e nenhuma rasura. Há falta de pontuação, mas que não prejudica o sentido. E a ortografia é a da época. O curioso é que minha mãe se queixava de ter estudado só dois ou três anos no curso primário e tivera acesso a um livro só; a “Selecta”. Sabia também que, ao mesmo tempo, fizera muitos exercícios de caligrafia. Por isso sua letra era boa, bonita, legível. Eu via isso em suas listas para o rancho e na sua assinatura sempre igual.

Segue contando que, no dia seguinte,  o doutor Sinval apareceu para levá-los às cocheiras para ver o Vibor, um cavalo de corrida que meu pai mantinha no Hipódromo paulista. E, às duas horas, após o almoço, partiram para Lindoia de “auto”.


O meu então noivo Ney com o cavalo Vibor quando em visita a São Paulo em 1948.

Como é costume fazer uma avaliação médica antes de começar a beber as águas medicinais, à noite, eles o fizeram. Papai “mexeu” com ela porque quem motivara a viagem era ele, mas o médico disse que era ela que precisava de remédios além das águas de Lindoia.


Fotos de meus pais em Lindoia.

Parte, então para comentários gerais. Pergunta pelo comportamento da Leda e do Lourenço que tinha, naquela época, oito anos. Queria saber se o Benito havia gostado do que ela deixara para ele (não sei o quê). Pede informações sobre o tio Edgar e a esposa que, provavelmente, deveriam estar-nos cuidando. Manda lembranças para as vizinhas. E quer saber se eu tenho me “ajeitado bem com a direção da casa”. Informa sobre a temperatura que achou parecida com a de Porto alegre. E encerra de modo tradicional a única carta que deve ter escrito em sua vida. A correspondência com os parentes e amigos eu que mantinha. Ela só lia as cartas que recebíamos.


Final da carta e da assinatura de mamãe.


Cópia da última identidade de minha mãezinha em 1984.
A assinatuta continuou igual.

Dia 15 de fevereiro marca o nascimento de minha mãe que foi em 1912, há exatos 103 anos. Minhas homenagens de filha agradecida ficam aqui registradas à mulher simples, de vida exemplar, educadora e carinhosa mãe de quatro filhos que criou com muito amor. Saudades.


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